sábado, 25 de novembro de 2017

Catarse

Como todos os dias, no fim da tarde ela saiu pra correr embora hoje o tempo não estivesse tão propício já que uma chuva ameaçava cair a qualquer momento. Mas ela precisava daquele momento, pois era nele que ela se desligava de todos os seus problemas e se conectava apenas com ela mesma.

Enquanto ocorria a chuva caiu, ela pensou se deveria parar e se abrigar em algum lugar para se proteger dos pingos grossos que caiam. Resolveu que continuaria e teve uma sensação maravilhosa. Enquanto corria a água que caia do céu molhava seu rosto e se misturava ao suor do corpo.

A sensação era a de que estavam lavando sua alma. Ela olhou em volta, estava sozinha no parque, as poucos pessoas que por lá se exercitavam antes da chuva cair ou tinham ido embora ou estava embaixo de alguma cobertura para não se molhar. Ela então começou a correr mais rápido, enquanto fazia isso começou a rir, se sentiu como uma criança brincando na chuva.

Deu um grito alto e forte, riu mais ainda, estava se sentindo livre. Era como se todos os seus problemas não existissem mais, aliás era como se mais nada existisse no mundo além dela. Naquele dia ela fez uma catarse e expulsou do seu corpo todos os sentimentos ruins que vinha carregando ao longo de algum tempo.


Chegou em casa, tomou um banho quente, vestiu sua camisola, deu uma olhada rápida nas suas redes sociais, pegou um livro e tentou ler, não conseguiu. A chuva havia passado, os sentimentos estavam de volta, a catarse havia perdido o efeito, só lhe restava agora esperar que o dia acabasse e outro começasse para iniciar novamente suas batalhas pessoais, as quais uma a uma ela ia vencendo...

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O tempo cura tudo


Ela chegou do trabalho com a cabeça a mil por hora, não conseguia parar de pensar nele. Resolveu sair para correr, correu por uma hora sem parar. Voltou pra casa, tomou um banho e foi assistir um filme. Estava sentada confortavelmente em seu sofá com os olhos voltados para a televisão, mas seus pensamentos ainda eram todos dele.

De repente um carro buzinou na frente de sua casa, ela pensou que poderia ser ele arrependido querendo voltar. Por um segundo tudo a sua volta parou. Seu coração bateu forte ela se levantou e foi olhar na janela, não era na sua casa, era apenas uma visita para o vizinho.

Estava triste. Voltou a sentar-se e a olhar para a televisão, mas seus pensamentos outra vez insistiam em passear por onde não deveriam. Resolveu então desligar a televisão, afinal, não estava conseguindo acompanhar a história do filme.

Se ao menos ela conseguisse chorar e colocar pra fora toda a sua frustação pelo relacionamento não ter dado certo. Infelizmente seus sentimentos estavam completamente travados. Ela era obrigada a conviver com aquele nó na garganta enquanto não conseguisse chorar.

Em alguns momentos ela achava que estava apaixonada, outras que estava assim por ter sido rejeitada, o certo é que não estava legal, estava sufocada e nada conseguia preencher esse vazio em seu coração. A ela só restava esperar que o tempo agisse e sarasse sua ferida.


sábado, 11 de novembro de 2017

Volta por cima

Laura era recém divorciada, tinha três filhas. Em uma tarde chuvosa ela conheceu Henrique, ambos esperavam a chuva passar para chegarem até seus respectivos carros. Engataram uma conversa, se adicionaram nas redes sociais, posteriormente trocaram telefones e assim foram se conhecendo.
Saíram pra jantar, cinema, dançar, tudo caminhava perfeitamente até que ele começou a mudar. Foi se afastando, se ausentando da vida dela. Ela sabia que ele era divorciado e se desdobrava entre o trabalho e os cuidados que dedicava a filha que havia optado em ficar come ele depois da separação dos pais. Pensou que esse seria o motivo, até o dia em que viu por acaso uma foto dele com outra mulher.

Ah malditas redes sociais. A foto era antiga, de antes deles se conhecerem, mas Laura teve um estalo, desses que toda mulher tem e que geralmente tem um enorme fundo de verdade. Procura daqui e dali, descobriu que os dois haviam namorado e que recentemente ainda se encontravam. Descobriu ainda que a moça tinha a idade de sua filha mais velha, aliás, a moça era jovem e linda.

Laura se olhou na frente do espelho, não era mais jovem, seus 42 anos lhe haviam presenteado com algumas rugas, algumas gordurinhas fora do lugar, ela se enfureceu, se diminuiu, chorou. Pegou o celular, correu para olhar a foto da moça de novo, era dessas marombeiras, rosto lisinho, bunda grande, cintura fina, cabelo preto e liso, ex miss bumbum, enfim, toda perfeita. Laura então se achou um lixo, seria incapaz de concorrer com essa menina .

Se deprimiu por alguns dias, excluiu Henrique de todas as suas redes sociais, inclusive do seu celular para não correr o risco não controlar a vontade de telefonar para ele. No entanto Laura entrava varia vezes ao dia nas redes sócias de Henrique, para saber o que ele havia postado, o que ele andava fazendo, na realidade ela stalkeava ele descaradamente. Tanto que já estava se achando uma psicopata. Começou a ter crises de ansiedades, mas o mais difícil era cuidar de sua alto estima que estava lá embaixo.

Até que um dia de tarde Laura recebeu uma mensagem pelo facebook, o irmão de seu amigo lhe dizia o quanto o tempo havia feito bem para ela, elogiou sua beleza e a convidou para jantar. No começo ela ficou na dúvida se aceitava ou não, mas sentiu nesse momento que ainda era uma mulher desejável.

Jantaram, se divertiram, ela riu muito. Inácio não era um homem lindo, mas tinha belos olhos verdes e um sorriso cativante, além de tudo era engraçado e inteligente. Por sinal ele havia sido seu professor durante o curso de especialização.  Seguiram por um tempo até que ela percebeu que não gostava dele o suficiente para seguir em frente. Ele queria um compromisso sério e era justamente o que ela não queria.

Que confusão, ela pensou. Como é difícil recomeçar a vida depois de uma separação, os sentimentos ainda são muito confusos dentro do coração. Mas ela não queria magoá-lo e não o fez, terminaram. No entanto se tornaram ótimos amigos. Costumavam almoçar uma vez por semana juntos, trocavam livros, indicações de filmes e eram felizes assim. Inácio a ajudou muito, por causa dele Laura conseguiu dar a volta por cima, se ver como a mulher divertida, desejável e linda que era. Seria eternamente grata a ele. Mas por enquanto ainda preferia estar com seu coração desocupado...


O tempo passou...

Marcela conheceu Enzo quando ele foi transferido de colégio, ela com 14 e ele com 16 anos. Ambos jogam voley nos times da escola, logo rolou uma certa identificação entre eles. Os cabelos ondulados e louros dele faziam-na acha-lo mais bonito do que realmente era. Resumindo ele despertou nela, a primeira paixão, que era correspondida dia sim, dia não.

Enzo beijou várias meninas, inclusive a melhor amiga dela, mas quando ela pensava que ia rolar algo entre eles, ele sumia. Marcela chorava, passava noites em claro, sonhando com o tão desejado beijo, até que ele se aproximava novamente. E assim ia se repetindo, ele se aproximava e se distanciava sem nada acontecer entre eles. Até que um dia, ao retornar da aula, ela parou um pouco na praça para conversar com os amigos, demorou um pouco mais para chegar em casa. E quando chegou encontrou ele sentado na calçada em frente a sua casa, comendo um saco de pipoca.

Ela olhou para ele todo tomado banho, perfumado e se olhou ainda de uniforme escolar e pensou porque não tinha ido diretamente pra casa. Se cumprimentaram, ela perguntou o que ele fazia la e ele simplesmente sem nenhum arrodeio disse que queria namora-la. Completamente sem ação e pensando que estava sonhando ela olhou pra ele e disse que precisa entrar em casa para avisar aos seus pais que já havia chegado da aula.

Nervosamente ela correu para dentro de casa, avisou aos pais, guardou sua mochila e saiu para encontra-lo. Sem saber ao certo o que falar ela se aproximou dele, e fez repeti-lo sobre o que o tinha levado até lá. Ele reafirmou o pedido de namoro, ela simplesmente baixou a cabeça e sorriu completamente tímida. Enzo chegou mais perto, levantou seu queixo e a beijou. Ela retribuiu, gostou do beijo. A partir daquele dia eram oficialmente namorados.

Como todo namoro de colégio se viam pouco, afinal eram novos, cheios de responsabilidades escolares e os pais ainda estavam se acostumando com a ideia. Passaram-se três meses e um belo dia ele a procurou para terminarem o relacionamento. Ela ficou triste, chorou, sofreu sua primeira grande decepção amorosa.

O fim do ano letivo estava próximo, eles estavam no último ano escolar, após o término das aulas nunca mais se viram. Tempos depois ela soube por amigos que ainda bastante jovem ele havia se casado. Mas fora essa notícia não sabia mais nada, até que cinco anos depois se reencontraram num arraial. 

Completamente sem jeito ele se aproximou dela, puxou conversa, perguntou se Marcela já havia casado, falou com tristeza do fim de seu casamento, os dois se despediram e ela foi embora. Dois dias depois ela foi surpreendida com a visita dele em sua casa. Como sempre ele foi direto na conversa. Estava mudando de cidade, mas após vê-la, segundo ele reavivou o sentimento da adolescência e ele percebeu que ela era o grande amor de sua vida. Portanto, estava nas mãos dela a decisão de ele ir embora.

Enzo disse a Marcela que se ela o aceitasse de volta ele não iria mais. Ela olhou para ele, um filme passou na sua cabeça. Realmente ela havia gostado muito dele, mas isso havia sido a muito tempo, hoje frente a frente com ele, simplesmente Marcela não sentia mais nada. Como podia ele jogar tanta responsabilidade assim pra ela? Afinal era sobre o futuro dele que estavam falando.
Nesse momento ela teve pena dele, mas foi bem sincera. Disse-lhe que não gostava mais dele, o tempo deles havia passado, tanto que hoje ela nem o conhecia mais, não sabia mais nada sobre ele, não sabia nem a pessoa que ele havia se tornado. “Siga seu caminho, seus planos e vá embora, não se prenda por mim”, ela disse.
Quando ele foi embora, ela pensou no quanto havia sido apaixonada por ele, do quanto ficou feliz quando ele a pediu em namoro, lembrou ainda de como havia sofrido quando ele terminou o relacionamento. Naquela época ela daria tudo para tê-lo de volta, mas hoje não mais. Ambos seguiram suas vidas sem nunca mais saber notícias um do outro.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Novinho

Todas as tardes Helena costumava ir para o parque perto da sua casa para dar uma corrida. Numa dessas tardes ela conheceu Getúlio, um jovem rapaz, de pele branca, cabelos lisos e castanhos. Enquanto ela corria ele se aproximou e se apresentou. A cada volta que ela dava sorrisos eram trocados.

No entanto, ela percebeu que a diferença de idade entre eles era gritante. Não ligou muito pra isso, tanto que ao final da corrida trocaram telefones. Pouco tempo depois que chegou em casa ele telefonou, pediu para falar com ela mais tarde pois ainda iria jogar futebol. Será mais um história de Eduardo e Mônica*? Ela pensou, sorriu e aguardou o telefonema.

Enquanto isso pensava na sua ‘apaixonite’ do momento. Um homem alto, cabelos negros, inteligente, por nome de João. Como pude me envolver assim? Resolveu então deixar rolar o que tivesse que rolar com o novinho, era assim que ela costumava se referir a ele. A esperança era esquecer sua paixão, o cativante João. Por dias marcaram de se ver, mas sempre na hora H ela inventava uma desculpa e eles não se viam. Até que um dia, ela o convidou para sua casa.

Ele já chegou beijando-a no portão, a tomou pelos braços, fizeram sexo no chão da sala. O sexo foi quase bom, se é que existe essa classificação. Na verdade tinha sido uma porcaria, faltou pegada, faltou talvez ela se entregar como deveria. No entanto, também faltou assunto e isso ela não perdoava.


Talvez a diferença de idade tenha sido responsável pelo vácuo entre os dois, pela falta do que falar, do que fazer. Helena até ficou na dúvida se ele realmente tinha os 25 anos que havia dito, pois o achou muito imaturo, inclusive no sexo. E quando o sexo terminou, terminou também o assunto, nunca mais se falaram...

*Eduardo e Mônica é uma canção que fez muito sucesso nos anos 80 com a banda de rock Legião Urbana