sábado, 27 de agosto de 2011

A vida não segue nossos planos

Ainda jovens, meus avós maternos José Higino e Mariinha  e suas três filhas (tia Jeanett, tia Jeize e minha mãe Janne) trocaram sua terra natal pela capital acreana. Chegando aqui, foram morar de aluguel em uma casinha humilde localizada no bairro da Base, bem próximo à Rádio Difusora. Era de lá que ele saía a pé todos os dias para exercer sua função de delegado de trânsito no Bairro Quinze.



Os anos se passaram e vovô se tornou um pequeno empresário do ramo cafeeiro.  Começou apenas torrando os grãos de café no fundo do quintal, depois arrumou um sócio e logo a empresa começou a prosperar, tanto que foi graças a ela que a família conseguiu comprar um terreno em local privilegiado da cidade, para posteriormente construir a casa própria.

Mas foi numa visita do irmão Luis Higino, que vovô resolveu apressar sua mudança, haja vista haver na vizinhança, um bar que funcionava até tarde. “Isso não é ambiente saudável para as meninas que já estão ficando mocinhas”, disse Luis. Foi então que conseguiram uma casa, na qual vovô não precisaria pagar aluguel e onde morou com a família até terminar de construir a sua. Da Base eles se mudaram para o Ipase.

Passados aproximadamente três anos, a tão sonhada casa ficou pronta. Agora eles tinham um verdadeiro lar. Orgulhoso do feito, vovô sempre dizia que graças ao trabalho e principalmente ao esforço, conseguira proporcionar a família uma casa confortável.

Mas vejam vocês leitores como a vida da gente não segue nossos planos. Depois da casa construída, as filhas foram tomando direções na vida. A mais velha casou, em seguida a do meio foi morar no Rio de Janeiro e por fim, não muito depois, a caçula também casou.

A casa que fora idealizada para toda a família, agora abrigava somente o casal e um sobrinho (Correinha) que ainda criança viera morar com eles. Sobrava espaço. Mas como a vida segue, logo chegaram os primeiros netos e foi nessa leva que eu nasci.

Poucos anos depois de casados papai e mamãe se separam e no meio desse processo eu fui morar com meus avós. Eu tinha mais ou menos uns três anos e vejam vocês, que o quarto anteriormente construído para três mocinhas agora era só meu, ou seja, eu tinha um quarto bem grande.

Mas independente do tamanho do quarto, foi na casa de número quatro, da rua João Donato que tive o privilégio de ter como referência de vida duas pessoas maravilhosas. É nessa casa que estão todas as minhas lembranças, seja da infância, da adolescência e até mesmo de adulta.

Passados oito meses de falecimento do vovô, muita coisa mudou e mudou porque a vida não pára esperando por ninguém, ao contrário, segue em um ritmo frenético, e eu de uma covardia sem tamanho, ainda não tinha voltado a casa em que passei a maior parte da minha vida. Essa semana foi inevitável, tive que ir lá e ao entrar e ver aquele vazio tomando conta dela, me fez chorar muito. De repente eu percebi que embora a grama ainda esteja verde a casa também morreu um pouco junto com ele.

O certo é que em minha memória sempre estará aquela casa branca, de portas e janelas vermelhas, jardim bem cuidado, vovô lendo um livro, vovó fazendo seu crochê enquanto eu, protegida por eles, sonhava com um mundo cor de rosa.

* Texto publicado no jornal Página 20  de 17 de julho de 2011.

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